05 dezembro, 2008

O Poder da Atracção

O colega Rui Gamboa aqui numa caixa de comentário sugere a discussão do porquê dos partidos não conseguirem atrair jovens e o que deve ser feito para que os jovens possam chegar-se aos partidos e às suas juventudes partidárias. Primeiramente, sou defensor das juventudes partidárias, são estruturas informais de participação política e devem ser locais de aprendizagem política, consolidação ideológica, mas acima de tudo escolas de civismo. Devem ser por principio a primeira fonte de atracção dos jovens à política. Veja-mos assim alguns pontos, pelos quais entendo que os jovens não se chegam à política e aos partidos:
  1. Sentido de participação política. Os jovens de hoje são os mais informados da história do país, mas menos participativos. Esta natureza advém do falhanço das políticas educativas, em especial da história recente de Portugal. Também, porque as jotas não conseguem ter grande actividade política e ideológica, não falo das estruturas de topo, mas das de base. As actividades são mais de carácter recreativo.
  2. Ideologia. Não há uma definição ideológica dos partidos, vagueiam atrás do voto. Os partidos e as jotas não estão preocupados em ensinar e sedimentar a ideologia. Mais de metade dos jovens entraram nas jotas, porque é o partido do pai, porque está lá o irmão, o primo, o melhor amigo, @ miud@ que se gosta, o António e o Manel. Não há sentimento ideológico e depois de se fazer parte da estrutura, não há a preocupação de se explicar e ensinar a ideologia e o porquê de ser-se do partido X.
  3. O trigo e o joio. Sendo as jotas estruturas informais - ou pelo menos, menos formais - tem ciclos interessantes, para se ganhar um congresso ou uma votação não é preciso ter grandes ideias e propostas, basta ter muitos amigos. Isto, acaba por afastar alguns que podem ter ideias, mas não têm amigos.
  4. Saber entrar e sair/ Trampolim. As estruturas de base (núcleos) são algo monárquicos, entra-se para a liderança aos 18 fica-se lá uma data de anos e só se sai se for para um cargo maior. As jotas são entendidas como trampolins pessoais, coloca-se o eu à frente do nós.
  5. Discurso jovem. Há uma equação que poucos conseguem resolver, um discurso que os jovens percebam com ideias definidas e profundas. Quando há a primeira parte, falha a segunda - e vice-versa.
  6. Formação. Não há apostas na formação dos líderes de base (núcleos e concelhias), muitos acabam por ter actividades mais recreativas do que políticas, porque também não têm formação.
  7. Agenda e ideias próprias. As jotas têm que ter uma agenda própria e não podem viver das questões fracturantes. As jotas não têm actuações niveladas, andam aos altos e baixos ao longo dos anos.
  8. Distanciamento dos políticos. Os políticos estão noutro mundo e só descem às ruas no mês antes das eleições. Não basta fazer o porta a porta de quatro em quatro anos.
  9. Conhecimento. Muitos jovens acabam por não entrar nas jotas, porque não sabem o que elas fazem e para que servem. Depois, é preciso saber-se em qual entrar.
  10. Autonomia financeira. A região é pequena e a administração pública é o grande empregador, convém estar caladinho se queremos trabalho, ou pelo menos não ser do partido contrário do empregador. De preferência, é bom ser do partido do empregador...
  11. Pensamento. Nas jotas e nos partidos, querem ao seu lado, pessoas que pensem o mesmo. Se fosse eu, queria ao meu lado pessoas que pensem de forma diferente de mim, porque para chegar às mesmas conclusões, já tenho o meu cérebro. A realidade, é que se afasta os que divergem e agrupa-se os que pensam da mesma forma, isto limita as tomadas de posição de qualquer estrutura.
  12. Liberdade de expressão. Entrar num partido ou jota limita a liberdade de expressão, criticar abertamente o partido é mal visto. É impossível limitar-se a expressão dos jovens quando estão em fase de consolidação intelectual.

Quanto a mim, os pontos essenciais são os 7.8.10.12, também, porque não tenho disponibilidade e não serei uma mais valia. Estou afastado dos partidos, mas sigo com atenção os problemas que afectam o meu meio, e é isso que considero importante. Sei que muitos irão discordar, está aberta a discussão. Os que são velhos leitores do In Concreto, saberão que já estive na JS. Entrei por empurrão de um primo líder de núcleo, nunca fiz qualquer participação ou intervenção. Infelizmente, acho que a minha experiência nas jotas é espelho de grande parte dos jovens que fazem parte nas jotas. Porque é que sai? Comecei a pensar pela minha cabeça...

3 comentários:

Claudio Almeida disse...

Tibério, gostei do post.

Surgiu-me uma ideia, fazer um debate na universidade pelo Núcleo de Relações Internacionais cujo o presidente é o nosso amigo Diogo Duarte ou mesmo pela JSD na sede Regional sobre qual o papel dos partidos políticos e qual a sua importância na sociedade ou mesmo sobre a juventude na política.

E lanço aqui este desafio aos nossos colegas do Blog!

Rui Gamboa disse...

Tibério,

Parece-me que de forma geral acertas nas razões do afastamento dos jovens das jotas. Por mim, não tenho uma opinião muito bem formada sobre as realidades das jotas, pois nunca fiz parte de nenhuma. Aliás, eu próprio quando comecei a pensar em envolver-me activamente, já tinha passado a idade limite. No meu caso, penso que terá sido o ponto 1 que para isso contribuiu.

Posso, no entanto, tecer algumas considerações sobre o afastamento das pessoas em geral (sejam jovens ou não) dos partidos.

1. É preciso termos em conta que são os partidos as plataformas por excelência para a participação política activa. Ou seja, é preciso fazer parte de um partido para poder participar.

2. Porém, há dois tipos de motivações (haverá mais, mas de momento centremo-nos nestas duas) para quem entra num partido. a) A vontade genuína de querer ajudar a resolver os problemas que alfigem a comunidade em que estamos inseridos e b) querer enriquecer, seja em termos financeiros, seja em termos de prestígio. Em relação a este ponto quero deixar claro que acho muito bem que os políticos sejam bem pagos, pois é um incentivo para que as mentes mais brilhantes queiram participar. Porque, não sejamos ingenuos, a estabilidade financeira não é um desejo apenas de alguns, todos nós, de uma forma ou de outra, a procuramos. Mas, participação política implica sentido de dever público. Em inglês chama-se civil servant, ou seja alguém que está ao serviço do bem público. E é a definição de prioridades, neste aspecto, que deve ser realçada: o sentido de dever público deve ser o primeiro factor para quem deseja participar na vida política, logo, nos partidos.

3. Isto leva-me ao teu ponto 3. Não só nas jotas, mas nos partidos em geral, quem acaba por subir na escada hierárquica, não tem que ser obrigatoriamente quem tem o sentido de dever público (logo ideias próprias para por confronto), não, o factor decisivo para esse sucesso será a base de apoio. Muitas vezes, porém, há quem consiga conciliar as duas: ter base de apoio porque tem ideias e sentido de dever público e, assim, mobiliza outros atrás de si.

4. A opinião que a sociedade em geral tem dos partidos não é a melhor. Isso não é de estranhar, quando há casos de justiça, como o recente BPN e outros, por isso sentem que não querem envolver-se nesses ambientes. Nada mais errado. Na minha opinião, esse tipo de casos só acontece porque se permite que aconteçam. Para evitar isso, será determinante exactamente a participação nos partidos.

Concluíndo [por agora;)] a participação pública, faz-se por via dos partidos. Essa participação poderá trazer benefícios, por isso torna-se apelativa a quem coloca os seus interesses à frente dos do público. Como a divisão do "trigo do joio" faz-se democraticamente, é preciso participar, é preciso fazer parte. A participação política é algo nobre e de importancia vital, trata-se de gerir o nosso bem comum, os nossos recursos, os nossos problemas, o nosso futuro. Desta forma, são precisas algumas qualidades para se poder estar à altura de tão importante tarefa: a) sentido de dever público b) capacidade de diálogo, saber ouvir e trabalhar com todas as partes, independentemente das ideologias que dividem; c) conhecer os problemas (dossiêrs) que se colocam à comunidade para quem se propõe trabalhar; d) ter capacidade de retirar conclusões e ter ideas próprias; e) capacidade de trabalho e de entrega (enfim, há outras) Não é fácil, daí a importancia da escolha.

A ideologia é a base de união dos militantes de um partido. O debate interno tem como fim o traçar de uma estratégia global e particular em cada área. Os que são eleitos devem o ser porque apresentam algumas das características acima mencionadas. Nunca porque têm capacidade para mobilizar votantes, como por exemplo em dia de eleição levar militantes a votar, ir buscando-os a casa, ou por exemplo tendo por base uma qualquer troca "votas em mim e depois eu arranjo-te .... seja lá o que for". Acabo, por isso, a questionar a validade das eleições directas.

Tibério Dinis disse...

Bem, os 12 pontos estão muito restringidos, o post já ia grande.

Caro Cláudio, os debates são sempre importantes e este em particular deve fazer sempre parte da agenda de qualquer jota.

Caro Rui, concordo em absoluto. O dever cívico deve ser a principal motivação.

Haja Saúde